12.31.2007

GPInformation wishes you a...



Photo: R.R.




... Happy 2008!!!




OPINIÃO: Novos ares para a Europa?


«Os habitantes das cidades são, pelo menos no que se refere ao nível de financiamento da UE, cidadãos de segunda classe da União Europeia». Esta consideração, veiculada no ano passado pelo eurodeputado húngaro Gyula Hegyi – relator da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar do Parlamento Europeu – refere-se a uma das questões de discussão mais urgente no âmbito do espectro político e da própria cidadania, até pelas suas implicações.

A verdade é que viver e trabalhar numa cidade é e continuará, se não forem tomadas medidas, a ser sinónimo de falta de qualidade de vida para o comum dos cidadãos. Os dados são inquietantes: segundo dados comunitários, na Europa dos nossos dias 360 mil pessoas morrem devido à poluição atmosférica. Se forem levados em conta factores como o tráfego automóvel excessivo, a escassez de espaços verdes ou o (ainda) insuficiente tratamento dos resíduos sólidos urbanos, então estes números são tudo menos de estranhar.

É de sublinhar o desafio lançado então por Hegvyi à Comissão Europeia (CE), ao propor que esta estabelecesse medidas como planos de gestão urbana sustentável, quotas de espaços verdes per capita nas cidades, promoção de transportes pouco poluentes e não-motorizados ou a introdução de taxas de congestionamento e de zonas de baixas emissões nas cidades com elevada poluição atmosférica. Para tal - convenha-se -, é também indispensável repensar o espaço urbano.




No que concerne à dimensão político-institucional do problema, esta discussão teve recentemente um desenvolvimento encorajador, com a CE a aprovar um conjunto de objectivos para a melhoria da qualidade do ar e contra a poluição atmosférica, com o intuito de aprovar uma directiva única (mais informação aqui). Algo que, ainda longe de concretizar a ambição (utópica?) de Gyula Hegyi, é importante, uma vez que muitos Estados-membros (Portugal incluído) não cumprem sequer os valores-limite previstos na legislação em vigor.

No entanto, apenas isto não chega. A inquietante constatação de que as metas lançadas em Quioto e reforçadas em Bali são ainda uma miragem leva a concluir que chegou a altura de poupar nas palavras de circunstância, tornando prioritário o investimento em medidas imediatas que conduzam, já numa perspectiva alargada às mais variadas dimensões, a um espaço europeu efectivamente ecológico, onde Ambiente, Tecnologia, Ciência e – porque não? – Economia sejam não apenas compatíveis mas verdadeiramente complementares.

Doa a quem doer, e com alguma atenção a quem sempre desprezou a ecologia e agora ostenta um discurso "verde", devidamente enquadrado em políticas de responsabilidade social e ambiental, enquanto sinónimo de votos e receitas.

Nuno Loureiro
Fotografias: D.R.



12.27.2007

People Like Us & Ergo Phizmiz: "Codpaste" podcast series





"Codpaste" is a free weekly podcast series presented to you by People Like Us & Ergo Phizmiz, who teamed up and, according to them, are trying to «compose collage music for you... with emphasis on the word "trying"».

So, they say that «it's reasonably rare that music is broadcast to you when it's not all finished, polished and dusted, but we're going to spew out the guts and gore to you, dear listener, so do bring a spoon».

Supported by Arts Council England and WFMU, this project presents audio sources, sketches, mixes and collages combining track elements with added instrumentation, electronics, vocals, etc., as well as fragments, layers, and multitracks of the collage compositions. Elements that are «tied together by snippets of light-hearted, tangential conversations and introductions and occasional mental overload and verbal meltdown».


"Codpaste" list:

Episode 1 - 3rd December 2007 - Cartoon Music

Episode 2 - 10th December 2007 - The Chase

Episode 3 - 17th December 2007 - Hooked On Classics

Episode 4 - 24th December 2007 - ThEdit


GPInformation
Photo: R.R.




12.23.2007

Entrevista: Ikue Mori




Recentemente, e no âmbito do festival Número Projecta '07, Ikue Mori visitou mais uma vez o nosso país e, desta vez, para um concerto diferente - três composições para três filmes mudos da cineasta Maya Deren. O ClubOtaku e o GPInformation tiveram o prazer de entrevistar um dos nomes mais importantes do panorama musical experimental e avantgarde do país do Sol Nascente.

Começou a carreira artística como baterista. Ainda toca?
Não toco bateria há mais de 15 anos e não tenho tido interesse em voltar a tocar, mas nunca se sabe o que poderá acontecer no futuro.

Para além dos detalhes técnicos, quais são as diferenças principais que pensa que existe entre tocar bateria e usar "máquinas"?

Em qualquer dos casos somos nós que as controlamos e, apesar das diferenças físicas óbvias, não existe qualquer tipo de forma de tocar com outros músicos/artistas.


Falando de "máquinas". Qual a sua caixa de ritmos favorita?

Desde há bastante tempo que uso uma Alesis drum machine. Usei também HR A, HR B e SR em simultâneo.


Tenko Eno, Zeena Parkins, John Zorn e Fred Frith são alguns dos nomes com quem já trabalhou ao longo desta longa carreira. Para si, quais são os factores mais importantes para que consiga trabalhar com outros artistas? Estamos aqui a falar de empatia artística?

Sempre que possível gosto de trabalhar com os amigos. Para mim, é muito mais importante a empatia e a comunicação artistica do que as questões técnicas.


Neste momento, está a trabalhar com alguém? Pode avançar alguns detalhes sobre os seus projectos recentes e futuros?
Tenho andado a desenvolver imagens para serem utilizadas em vídeo aliadas a sons.
Editei o primeiro DVD pela Tzadik. Realizei uma animação para umas pinturas antigas do Bali que conta a história de uma viagem do inferno para o paraíso.
Na música, terminei o segundo álbum do projecto Phantom Orchard, com a Zeena Parkins, e o meu outro projecto Mephista, com Sylvie Courboisier (piano) e Susie Ibarra (drums), regressou da terceira tourneé europeia. Ainda tenho os meus dois concertos para Março de 2008 na Japan Society.




De que forma pensa que viver entre os EUA e o Japão se reflecte no seu trabalho artistico?
É bom que existam estas distâncias para termos uma visão diferente das coisas.


Neste concerto tocou três composições para filmes mudos. Escolheu-os ou foi convidada para fazer a banda sonora para eles?
Originalmente este espectáculo foi comissariado pela Tate Modern (London). Lisboa ouviu falar deste projecto e convidou-me.


Mudando de assunto, alguma vez pensou em editar numa netlabel? Que opinião tem sobre as netlabels e qual pensa que será o seu futuro?
Neste momento não tenho nenhum interesse em editar em netlabels...


O que pensa de Portugal?
Já estive em Portugal bastante vezes e gosto muito do país.



Fernando Ferreira e Nuno Loureiro
Fotografias: D.R.


Entrevista também disponível no Niji Zine/ClubOtaku




12.18.2007

Ditterich von Euler-Donnersperg: "O Du Frohliche/O Tannenbaum Dub"


And of course, the days are short, the nights are long and we must celebrate the birth of our saviour again.

Christmas was no friend of mine. But there is one little bit of light in the dark days of Christmas: Meeuw Muzak releases another fine 7". By now I can spend at least half boxing day listening to the crazy Christmas tunes of Meeuw. The latest addition is by Ditterich von Euler-Donnersperg who has released some even more crazy music on his own Walter Ulbricht label and Die Stadt, with partly reading of texts and partly electronic music.

Here he offers two soft electronic music pieces, which are like snowflakes (of course it never snows in Dutch Christmas times). Almost kitchy and new age like on a super cheesy keyboard with all the wrong (and thus right) preset sounds, Ditterich is perhaps that great family man that such tunes under his Tannenbaum for a wealth of happy children, who start unwrapping their
presents as daddy finishes his tunes.

Great stuff, once again. I can't wait for Christmas with my Meeuw Muzak collection (isn't about time for a nice CD compilation, mister Meeuw).


[7" by Meeuw Muzak]

Frans de Waard / Vital Weekly
Photo: Meeuw Muzak


12.11.2007

De Fabriek goes the Hitmachine : “Het Terrein II”


If this is “Het Terrein II”, there must be a “Terrein I”, which I found in some blog (433.rpm.blogspot.com) being a cassette from the late 80’s by De Fabriek and Hands Minimal Arts. I have no idea why this title is now dusted off and used again, unless the process behind this is the same as the one before, but information is something that not well spends on De Fabriek, unlike their many releases.
After some thirty years it's hard to make any sort of discography by this Dutch “band” (?), let alone tell if they have anything to do with releases that carry the name De Fabriek. Confusing? Yes, sir, it is. Information on “Het Terrein II”? I'm sorry, sir, no such luck. “De Fabriek Goes The Hitmachine” is all it says, besides the label information.
There is however one track on the CD and not two. In a good solid forty minute mega mix (to use that 80’s phrase) we, the listener are taken for a ride through both music by De Fabriek and The Hitmachine, my local groupe extraordinary, who are like De Fabriek: always in for surprise. Who does what or when, who sat behind the controls when producing this, it's all quite unclear. I recognized elements of De Fabriek's “Neveleiland” release, the live rock elements no doubt come from The Hitmachine (as De Fabriek never plays live), but throughout it's hard to know what is the outsider rock/noise/pop of The Hitmachine, or the experiment/industrial/techno noise of De Fabriek.
It's like two chameleons in a room, changing colour, shape and size every time you look up. It's probably as much as a De Fabriek and The Hitmachine release. It even has a cover that strongly resembles a lot De Fabriek did – go figure that one yourself. And as per usual: limited to merely 300 copies only. Another pre-programmed collectors item.
[CD by EE Tapes]
Frans de Ward / Vital Weekly
Photo: R.R.


12.05.2007

Portefólio: Portraits of "A Longer Journey"










["A Longer Journey", Instalação de Pedro Cabrita Reis, Centro de Artes Visuais, Coimbra]

Fotografias: Nuno Loureiro (2003)






12.04.2007

Projecto: Camera 312 – Promemoria per Pierre



Pierre Restany, o fundador do Novo Realismo, foi um carismático crítico e livre-pensador que influenciou as ideias e o mundo da arte contemporânea.

Durante 30 anos, viveu no Hotel Manzoni, em Milão, no histórico quarto 312. Foi precisamente a decoração deste quarto que foi recriado na exposição/instalação colectiva “Floating Yellow Post-It ®”, o elemento basilar do projecto “Camera 312 – Promemoria per Pierre”, promovido entre Junho e Novembro passados pelo Milan Art Center, com coordenação do artista plástico italiano Ruggero Maggi, no âmbito da 52ª Bienal de Veneza.

Inaugurada por uma performance assente na interacção performer/música/vídeo, “Floating Yellow Post-It ®” – que procurava captar a atmosfera intimista do quarto 312, em todos os seus elementos –, era totalmente preenchida pelo tom amarelo, presente nas paredes, na mobília, no espaço envolvente do público. A intenção – frisa Ruggero Maggi – era providenciar a cada um dos artistas convidados uma forma «directa, colorida e fluxus» de deixar o seu próprio testemunho poético.


Fotografias: Cassaglia & Cerisola


Sobre a origem do projecto “Camera 312 – Promemoria per Pierre”, fica a explicação (pessoal e sentida) do seu mentor:

«The night I was told that Pierre Restany had passed away, I was suddenly and violently moved. I knew he was seriously ill, but his recent letters revealed confidence and hope. When I first met him, in the middle of the seventies, in Milan at Hotel Manzoni, I told him about my travel in the Peruvian Amazon. The world Amazon was the key word that immediately put us into a spiritual contact: he loved a lot that forest as well, and he deeply knew that world.

Since then we met many times and always our love for Nature came out. He was deeply fascinated by the eternal mystery of Nature, even if, in the years, he could perceive is most comprehensive essence only from the airplane, as he ironically used to point out in his letters. (…) After his death I thought I could honour him with this project, which is not only dedicated to him, it is centred around him».


Fotografia: Giorgio Pahor


12.02.2007

John Chirstopher Shillock: “Invisible Jazz”



Christopher Shillock is called the underground poet laureate of downtown Minneapolis. He has a BA in Spanish and a MA in philosophy. During the 1980’s he was active with various Communist and Anarchist groups in the Twin Cities.In 2003 Shillock received a Verve grant from SASE and the Jerome Foundation for hispoetry/video book "An Invitation to the Terrorists Ball".

Now that we know this, what about "Invisible Jazz"? It is a collection of poems by Shillock that areinspired on ancient Greece and Rome, medieval Paris, baseball, etc. Tabatha Predovich composed the songs, and both sing and perform the poems.

I can't judge on the poems, but the compositions are very conventional and without any originality. This means boring and completely outdated. They sound as middle of the road 70's pop music. I asked myself how on Earth it is possible that today this kind of music that sounds as if it is directly transplanted from the 70's is played by musicians in 2006. Strange for an anarchist to do so, if you ask me. Of course they merely serve as a vehicle for the poems and most of the poems deal with even more ancient times.

In that sense a coherent project.

Christopher Shillock



Dolf Mulder / Vital Weekly
Photo + image: R.R.

11.14.2007

V2: O sucesso continua



É oficial. A campanha “Spread the Word”, dinamizada por V2, atingiu o número (entretanto já ultrapassado, por certo) de 2.500.000 dos emblemáticos autocolantes que vem distribuindo desde 1995.

Entretanto, e num registo diferente, V2 integrou recentemente a equipa dos De Fabriek de Richard van Dellen (ver entrevista aqui) para o álbum “Quatro-Erogenic-Occupy Theme's Part II", editado em Itália pela Afe Records. Um trabalho que, fortemente marcado pela influência da kosmische muzik (ou não tratasse de um ambiente alienígena), evidencia mais uma vez a qualidade e personalidade próprias deste projecto.


A V2, amigo de longa data que o GPInformation representa em Portugal numa exclusividade que desejavelmente não durará muito mais, endereçamos os nossos mais sinceros parabéns.

Nuno Loureiro
Fotografia + Imagem: D.R.


Projecto Jil: “Limited Edition”




“Limited Edition”, do Projecto Jil, é, antes de mais, um trabalho de continuidade.

À semelhança dos anteriores "Songbook" e "Back to Zero", o disco apresenta uma sonoridade suave e dançável, direccionada para o usufruto hedonista, embora distante da club culture, onde o minimalismo – como se sabe – se impôs. Com efeito, a este despojamento de elementos, o Projecto Jil contrapõe uma fusão que, não sendo propriamente original, combina de forma eficaz (e agradável) a base electrónica com referências marcadamente jazzísticas, lounge e, por vezes, mesmo ambient.

Talvez seja uma comparação por demais evidente (e também provavelmente redutora), mas ao falar de “Limited Edition” é difícil não evocar os exercícios estilísticos da Cinematic Orchestra ou dos Two Banks of Four.

Depois da vaga de som clínico que inaugurou o século XXI, muitos têm sido os que optaram por revestir os seus registos de um carácter mais orgânico, mais humano. A diferença do Projecto Jil é que nunca deixou de o ter.

[CDR – Edição de autor]

Nota: Disponível online está também a pequena pérola que é o vídeo "The Barefoot Runner", realizado por Filipe Y e musicado pelo Projecto Jil.

Nuno Loureiro
Imagem: D.R.

11.12.2007

Portefólio: "Spektre"



Spektre #1

Spektre #2




Fotografias: Miguel Reis / Remixes: Nuno Loureiro




10.25.2007

Paul Hegarty: “Noise Music: A History”

Paul Hegarty is a philosophy lecturer at University College Cork, with an interest in what he wouldn't call the genre of noise (“music”). A book either giving a history of noise's development, or an exegesis of its socio-philosophical implications would have been interesting. Unfortunately, this is neither.

The opening chapter sets off at a fine intellectual gallop "for Kant ... for Russolo. for Cage... Attali too. As... Ardono" – this is from a single page! Elsewhere, Nietzsche, Heidegger, Bataille, Hegel et al. All appear… a little too like the first attempt at a doctorial thesis, then in later chapters citation either runs out completely or revolves around another of Hegarty's interests – Adorno on Jazz, but not the Jazz here, (and why Jazz?). Bataille on Sade. There are inclusions – too many: Improv, Punk, The Grateful Dead, Prog Rock! and self confessed notable exclusions – and others not Reich's pendulum music Lou Reed's “Metal Machine”, The Gamelan, Harry Partch. The whole New Zealand phenomenon.

How Hegarty gets away with this derives from two of his arguments, first that anything can potentially be called "noise", as in his long example of Yes's Tales of Topographic Oceans – well yes! –, but no mention then of Abba or Mantovarni. And secondly, that the avant-garde in music has often been described pejoratively in its beginnings as “noise”, or, as in the famous case of Sir Thomas Beecham, as shit – but this is beside the point. The point being "noise" applies to a particular phenomenon in music as an identifier and not a critique (Pop Art is not Pop Art because it is or was “popular”).

We know, and Hegarty certainly does, that such games can be played with definitions – this is Wittgenstein's famous “game”. To conflate the genre of noise, the “thing” with the same word applied as an attribute or subjective opinion of any music or sound is something of what I would call an ontological mistake of the first order. Or is it a strategy because it allows Hegarty to discuss any artist he wants to.

For instance, the space given to Cage and his silences – relevant by being irrelevant to the point of being a binary opposite – he might say? When after several chapters we get to actual Japnoise, and a further chapter on Merzbow, the irrelevance of much what went before becomes obvious. But here Hegarty fails to deliver what the patient reader might want – might expect, a detailed account – it’s all apologies. «This chapter will not so much deal with the specificity of noise music from Japan».

He then goes on to a consideration of McLuchan on globalization, to raise the question: «what kind of world is in or behind world music». «World music»? I'm confused? This is a very confused history, and one which fails to pick up on the development of noise from Japan back to the USA and Europe, where it has been taken up as a definite genre, having its own festivals, labels, retail outlets both on and off-line, and even now its own proto-industry of designed and manufactured devices marketed by such as noisefx.com.

Widespread broadcasting on US University campus's and across Europe as radio and webcasts, of dedicated websites to the promotion of noise labels such as PacRec, artists like Wiesse and The Rita.

As a history the book this is chronology flawed, as a serious study the attempt to buttress certain artists (irrelevant to the genre in many cases) by relationships to certain philosophers seems strained. The book lacks structure and appears more like a set of articles, some written in an academic style, others not.

A detailed chronology, discology would have been useful. Works are referred to where perhaps a copy of the score might have been illuminating, even some pictures would help what is aesthetically a remarkably dull book. An accompanying CD or at least pointers to MP3s on an associated site would also have helped. I think that there is a sufficient body of material, artists, events, labels, online and actual retail outlets, manufacturers, chronologies and general dissemination of what can be called noise to warrant a study which does not piggy back on to it philosophical critiques of Cage, Jazz, Prog Rock, Punk and Rap, amongst others. Unfortunately, that's what Hegarty appears to do.

Maybe we can justify such irrelevance in this communication (of a history of noise music) as being itself yet another example of “noise”, but the genre of noise music is nothing to do with the unwarranted junk found in communication, or if it is, how is it, and why is it?

[Book by Continuum > hagshadow@hotmail.com]

jliat / Vital Weekly


10.21.2007

VIDEOLAB LAGOS 2007


No seguimento da idêntica iniciativa já levada a cabo no ano transacto, o Projecto Videolab, em conjunto com o Laboratório de Artes Criativas e a Área 55, vai promover, nos dias 1, 2 e 3 de Novembro, o VIDEOLAB LAGOS 2007.

A grande novidade da presente edição é a substituição de sessões de âmbito generalista por sessões dedicadas ao tema "Imagem-Corpo".

Neste sentido, o VIDEOLAB LAGOS 2007 é composto por três sessões com diferentes abordagens ao "Corpo", e por um conjunto de quatro instalações vídeo, a decorrer no Espaço Jovem e no Laboratório de Artes Criativas, respectivamente.


Shadow's veil


individuality
without face
but the spirit is containe

The darkness has always divited the souls. Quiet's zone or infinite space which become claustrophobic. A shadow's veil can make stand out hidden beauties, alter the appearance by sudden and improbable plays of light and shade.

But how look the reality when a shadow's veil is imposed? How each matter which separates, however thin and intangible (it's devastating the psychological shadow's violence), the result is always transformed in a limit which sketches visual fields and of action, where the imposition enfeebles the freedom. The inner and the outside undergo alterations which can condition both the individual and the community.



Maybe only stimulating to the maximum our sensibility we can try to break that detachment which makes us silent observers.

[Shadow's veil - art & social instalation]

A text by Ruggero Maggi
Photos + Image: R.R

10.17.2007

Interview: Beequeen


Kings of the sound beehive


Freek Kinkelaar, Frans de Waard and Olga Wallis


When talking of dutch alternative music, it is just impossible to detour from Beequeen, and, consequently, one of its creative halves, Frans de Waard. Which also means approaching other projects and subjects. GPInformation has the pleasure to present the direct speech of its favourite collaborator.

First than all, a contextualization. When, where and why did the Beequeen project began?
Frans de Waard (FdW): We met in 1988, when Freek [Kinkelaar] contacted me believing I was a hardcore Legendary Pink Dots fanatic. Little did he know. We did share a taste in adventurous music though and soon we found ourselves listening to cassettes filled with strange music for hours. Not long after that we met up. We decided it would be a good idea to see if we could produce music together. This became the “Mappa Mundi” cassette.

Which are the main concepts behind Beequeen's sound work?
FdW: There isn't a concept as such. Beequeen is about two people making music together. As our lives, environments or musical tastes change, the music changes as well. This makes Beequeen a bit like a soundtrack to our lives.

Taking in account the longevity of Beequeen's career, which are the clearest evolutions and differences you would point in its production, throughout the years?
FdW: Probably the clearest evolution (also for the listener) would be after we'd produced “Treatise”, and we realised we could make music like that for ever if we wanted to. We didn't, so we let our love for the "song" influence our music. Thus “Ownliness”, and then “The Body Shop”, were born. Another – perhaps more subtle – changing point for us was when we did “The Surrough Gate”, which was a definite step forward when it came to recording and composing.

How is to work to another person – in this case Freek Kinkelaar – for such a long time?
FdW: Actually I work with more people, like Peter Duimelinks and Roel Meelkop, and also for quite some time, so it's not odd. I like to work with people who do something else than I do, or can play a real instrument. Freek can really play a tune or two. I can't.

Surely you are two very different persons. How do those differences reflect in Beequeen's final result?
FdW: We are indeed very different persons, but we also share quite a lot. We do have a long history together. There are times when we annoy each other profusely, but we also make up a lot and have a lot of fun together. We've known each other for 19 years, so we know a lot about each other. It is a bit like a marriage.

You never were a "one-project man". What side work are you maintaining these days, besides Beequeen?
FdW: I do Goem solo these days, since we have a hard time finding time to work as a trio. I do Freiband and a bit of work under my own name. Not much.

The dutch avant-garde/experimental/outer limits scenario was always quite interesting (with Staalplaat being, probably, its strongest "magnet"). What’s your vision on the role that you – Frans de Waard – had and still have on that same cultural scenario, through your activities?
FdW: Hardly, I think. I am not part of any scene. To some scenes remotely and do things, but more on a consulting level than on creative level, like some of the “work” I do for Extrapool, in Nijmegen. But I am not part of the noise scene or the official avant-garde posse. We (Beequeen, Kapotte Muziek and its varying members) are all outsiders, I guess.

On the other hand, how do you, as a citizen, see the present days in The Netherlands, both from the artistic and social points of view? Has the country changed?
FdW: The populist movement is quite strong, but people have very little understanding of the word “freedom”, whereas they call for new oppression. Not for themselves but for others. Sad, but the case. I am sure it will change in the future. No repression is ever lasting.


Beequeen's technically flawed show at Nancy, France


Focusing on sound production, what is Beequeen preparing for the near future?

FdW: We are currently working on the final mixes of the new Beequeen studio CD, entitled “Sanddancing”. This is an evolvement of our work with “Ownliness” and “The Body Shop”. We are both very excited about “Sanddancing”. It is probably the best of this trilogy.


Can you advance some more details on the "Sanddancing" production, as well as on its sound?
FdW: It's not a unified thing. It's a new album, the third more pop, like one. Like with “The Bodyshop”, we gave the rough recordings to Erik Drost, former guitarist of the Legendary Pink Dots to shape it, take out some unwanted hiss, put things in its place and mix it. “The Bodyshop” was already great, but this new one is more a unified whole thing.

What are you planning for your other projects?
FdW: I'd love to do a new Goem CD, when I have time to work on it. Roel and me completed a CD as Zebra which nobody wants to release. Roel, me, Guiseppe Ielasi and Howard Stelzer will have a CD on Port, in Japan. Beta-Lactam Ring is supposed to release five CDs from me (three as Freiband, one as Shifts and one as Frans de Waard), but it's unclear when that will happen. And I started to release CDRs again under My Own Little Label, which I think is great fun.

Are you releasing just your own work, or do you also publish other artists?
FdW: Well, if I wanted to release other people's work on My Own Little Label, I would have surely called it Our Own Little Label, which I didn't. My = me = me. And, oh, there are releases from very close friends who have as little faith in the music industry as me, such as Roel Meelkop. I even will release shortly a business card CDR from my eight year old daughter, who did some field recordings and composed a small piece of it. Korm Plastics and Plinkity Plonk will, of course, continue to release music from others.

Speaking of other persons, you once mentioned to have being involved in the return of Steven Stapleton/Nurse with Wound to live performances. What can you say on that?
FdW: I worked in 2004 and 2006 for the Earational festival, and it wasn't my action, but the festival director got Steve out of his place and present a surround sound mix of “Salt Marie Celeste”, by Colin Potter. Now they are everywhere, but nobody credits Earational. They also did the comeback of The Hafler Trio in 2003, but then also there others take the credit.

This last question brings us to your own live presentations. How would you describe a Beequeen concert, if possible?
FdW: We play once a year, so what can I describe? Two guys on stage, one plays a laptop and one a guitar. We don't dance around.

Nuno Loureiro
Photos: R.R.

This interview is also available at Chain D.L.K.




10.15.2007

Artur Lasoñ


A mística do som

Artur Lasoñ

Compositor e executante de música electrónica computorizada, jornalista, docente, terapeuta, místico.

Todas estas actividades resumem (talvez de forma sumária) a carreira – já com cerca de 20 anos – de Artur Lasoñ, tão multifacetada como a personalidade artística de alguém que privilegia a descoberta interior em detrimento dos holofotes da notoriedade pública.

A discrição adoptada por Lasoñ não invalida, porém, que tenha vindo a participar em vários eventos, nomeadamente os mais importantes festivais de música electrónica realizados na Polónia [ZEF – Zlot Elektronicznych Fanatyków (Gathering of Electronic Fanatics) e Bliskie Spotkania z Muzyka Science Fiction (Close Encounters with SF Music)], assim como a Nocne Czekanie na UFO (The Night Awaiting for an UFO) e os Miedzynarodowe Spotkania Muzyczne – Ambient 2000 (Internacional Music Meetings). Aqui, teve lugar a apresentação ao vivo que se constituiria, porventura, como a mais marcante da sua carreira, quando interpretou uma peça improvisada em conjunto com Hans-Joaquim Roedelius, figura lendária da kosmische muzik, que integrou projectos como Kluster, Cluster ou Harmonia. «Foi um evento maravilhoso», recorda.


Roedelius e Lasoñ


Numa vertente mais interdisciplinar, promoveu em 1999 a série de espectáculos “MMM – Music, Multimedia, Mysticism”, acolhida pelo Museu da Ásia e Pacífico, em Varsóvia.

A docência é outra das vertentes onde Artur Lasoñ explora a relação entre mente e som. Desde 1996, ensina Ecologia da Mente e Técnicas de Meditação, cooperando ainda com a publicação “Cwzarty Wymiar” (“Fourth Dimension”), onde escreve sobre músicos que inspiram o seu trabalho em experiências meditativas e metafísicas.

A carreira jornalística começou, porém, três anos antes, quando passou a assinar a coluna “Moogazyn”, primeiro na revista “Enter”, e, posteriormente, na “Estrada & Studio” (“Stage & Studio”). O lado técnico desta análise materializar-se-ia num livro para principiantes no uso da tecnologia na música: “Introduction to a MIDI – Or let’s drift along the right channel”.

NEW RAGE VS NEW AGE



Misticismo e meditação não são materializados, necessariamente, em música new age. A esta, Artur Lasoñ contrapõe o conceito new rage, que explica no álbum “Hue Rage Music”, editado pela sua própria etiqueta, FEMME - For Electronic & Meditative Music Evolution. «Se a arte não estimula, causa indiferença – como uma parede nua para a qual não se olha, porque foi construída com um outro propósito», afirma, metaforizando: «Implica evitar o esforço, como uma cadeira onde se senta porque o chão está meio metro abaixo. Isso mata a imaginação».

A “raiva” proclamada por Lasoñ, contudo, não se reflecte directamente no produto sonoro final, que oscila entre o ambient, a electroacústica e a simples composição melódica. Em causa está um inconformismo imaginativo, fruto da miríade de universos percorridos. Na música e na mente.

Nuno Loureiro
Fotografias: D.R.








10.10.2007

RAMsilver: “Songs for Love & Destruction”


A alg-a lançou recentemente online o álbum “Songs for Love & Destruction”, o primeiro trabalho do projecto RAMsilver, anteriormente conhecido como Subgenio.

Estas “Songs for Love & Destruction” são compostas por 11 temas de «fragmentación sonora, ruído e velocidades, digital hardcore, glitch e noise».

> english

Alg-a has recently released online the “Songs for Love & Destruction" album, the first work by RAMsilver, previously known as Subgenio.

These “Songs for Love & Destruction” are composed by 11 tracks of «fragmented sounds, noise and velocities, digital hardcore, glitch and noise».

10.09.2007

People Like Us: "Honeysuckle Boulevard" em MP3



A notícia já não é nova, mas é sempre útil. O (já esgotado) 10" "Honeysuckle Boulevard", de People Like Us & Ergo Phizmiz, está disponível para download no site do projecto de Vicky Bennett ou, em alternativa, no blogue da WFMU.

O ficheiro inclui ainda dois temas extra – "Social Folk Dance" e "Bad Restaurant Boogie" –, assim como uma reprodução do trabalho gráfico original e um texto informativo.

Entretanto, Vicki e Ergo estão a trabalhar numa série especialmente produzida para podcast, que será concluída no próximo ano.



Fotografia + Imagem: People Like Us


10.06.2007

V/A: “Elffriede Soundrawing”



The musical pieces, all 34 on the CD, were inspired by the drawings made by Austrian Elffriede, a visual artist. Her drawings are in a simple style, almost cartoon/comic like, but with words, in German and Dutch (the 7" sized booklet was printed by Knust/Extrapool in lovely Nijmegen), which have a poetic character.

There is, I think, quite an uniform character among the drawings/text, which is important to keep in mind when we listen to the music. Elffriede asked 34 musicians to make a musical piece, inspired by her drawings.

These pieces are by a wide variety of musicians, operating in many styles. From Phill Niblock, Murmer, Jgrzinich to Incite, Jörg Piringer to Wohnzimmer, Zemmler which means from pure soundscape and serious composition to click/beat to naive lo-fi songs on cheap keyboards and acoustic instruments. It's a bit hard to like them all, I think, but I thought of it as a radio program: you switch it on and start listening to whatever comes, and things may not always have a relation.

Elffriede's book may serve as the program guide, which you can flip through when playing the CD, or simply put aside when you are done with it, and continue to enjoy the music, picking it up every now and then.

[CD/Book by Transacoustic Research]

Frans de Waard / Vital Weekly
Image:R.R.

9.23.2007

V/A – “Heizung Raum 318”


Perhaps the sensation of a low humming sound that is not annoying is something that many readers will recognize. I once slept next to a refrigerator, but was fascinated all night by all the sounds it produced.

Room 318 is the name of a room in the building where Asmus Tietchens teaches sound at the University of Applied Science in Hamburg and “heizung” is the German word for “heating”. Except that it doesn't produce heat, but it makes a nice whistle. By turning the knobs of the radiator the whistle changes.

Since the three persons (or took) classes with Asmus Tietchens have paid close attention to the old master, it's a small step of recording the radiator – actually, all three of them – and turn them into music, along of course with an exercise by the master himself. The original source material is at the end of the CD, and the crude whistling makes it hard to believe that it leads to the preceding seven sound pieces.

It's easy too assume that all of these composers work with computers these days, and that one could also wrongly assume that their pieces would sound similar. This is not the case. Each of them approaches the source material in a different way, and this leads to quite interesting pieces of music. Asmus Tietchens delivers a piece of his trademark style processing: silent but loaded with small sounds and even a rhythm of some kind. Gregory Büttner applies the recent Tietchens methods (his “Menge” series) into a well-crafted piece of sizzling electronics. But there is also the more industrialized noise of Nicolai Stephan and Stefan Funk (especially in his last two versions; he has four in total), who take an entirely different route in their approach. Their music is closer to noise than to microsound, but they make a nice variation on the matter.

Quite a nice compilation altogether.

Asmus Tietchens

Frans de Waard / Vital Weekly
Photos: R.R.

Merzbow

Música Noise

Masami Akita


No ínicio dos anos 80, o jovem Masami Akita, insatisfeito com a sua passagem pelo rock e pela pintura, decide exprimir-se de um modo novo. Brutal e inconformista, junta a agressividade do rock, a espontaneidade do freejazz, a radicalidade do dadaísmo e o extremismo do que se chamou "música industrial", para criar Merzbow.

O nome deste cadáver esquisito foi adaptado de uma colagem tridimensional do dadaísta alemão Kurt Schwitters, “Merzbau”, constituída por peças inutilizadas de velharias encontradas na rua. No conceito desta "Catedral da Miséria Erótica" – nome alternativo da obra – Masami Akita encontrou a ideia para as primeiras realizações do seu projecto musical.

Também elas eram colagens anárquicas de ruídos recolhidos de diversas fontes (televisão, rádio, discos, guitarras desafinadas, vozes) manipulados e amplificados de modo a produzir uma cacofonia densa e violenta, sem a mínima concessão às convenções sobre ritmo e melodia.

Estas peças haviam de se tornar cada vez mais extensas, superando os seus próprios limites em cada obra seguinte, originando aquilo que contraditoriamente se pode chamar música "noise".

A presença do ruído na música contemporânea não era, já então, inédita e pelo menos desde os futuristas italianos que encontramos o ruído, não só como fenómeno acidental, mas tomado mesmo por vezes como o objecto essencial da expressão musical moderna.

Em 1913, Luigi Russolo escrevia o seu manifesto "A Arte dos Ruídos" e proclamava o uso de todos os ruídos, desde os motores de explosão aos gritos humanos, como expressão material de uma música moderna e futurista, que se opunha aos entediantes concertos dos salões burgueses.

Na verdade, este compositor italiano não se limitou a usar os sons urbanos do quotidiano como os recriou, inventando os seus próprios intonarumori (máquinas de fazer ruído), para os quais escreveu composições numa nova forma de notação musical.

Não obstante, não podemos inscrever o "bruitismo" de Russolo na genealogia de Merzbow. Se Russolo reivindicava o uso dos ruídos, na sua música futurista, fazia-o em nome da renovação tímbrica da música moderna. De facto, podemos reconhecer herdeiros directos desse enriquecimento da música com sons concretos do quotidiano e da síntese electrónica de sons em Edgar Varèse ("Poéme Eléctronique"), Pierre Schaffer e Pierre Henry, ou mesmo em expressões populares, do rock ao tecno.

Já em Merzbow, e no noise japonês, em geral, o ruído não é apenas um novo instrumento; ele torna-se a forma e a matéria da obra musical, em tudo o que isso pode ter de contraditório.

O ruído é normalmente definido como o som desagradável e não desejado, opondo-se ao som musical. Esta é talvez a definição mais simples e mais aceite, mas assenta num critério subjectivo: o que é ruído para uns pode tratar-se de música para outros. Nesta mesma linha relativista e subjectivista, Masami Akita problematiza: «Não faço ideia do que chamam música ou ruído (...) se o ruído significa som desconfortável, então a música pop é ruído para mim».

Porém, e ao contrário do que mostra a boa fé destas palavras, a música noise joga precisamente com a oposição som musical/ruído, nomeadamente, com o facto de o ruído ser função do que não é ruído, que por sua vez é função de não ser ruído. Isto é, o ruído é ruído, na medida em que não é música, e a música só o é, porque não é ruído.

Mas isto não significa que o ruído seja uma forma mais primitiva e originária de som. O som bruto não é nem música, nem ruído. Essas são apenas categorias que são aplicadas aos resultados da percepção auditiva em função de critérios psicológicos e culturais. Escolher o ruído como categoria estética essencial de uma expressão musical é partir de uma contradição interna, pois: apresentar como música o que é suposto não ser música, é como matar-se no berço o próprio projecto de música noise, na medida em que, a partir do momento em que é apresentada a um público disponível ela parece perder instantaneamente a sua função de ruído, tornando-se apenas projecto artístico.

Manifestação da PETA (Japão)


Semelhante situação viveu o projecto de "anti-arte" Dada, onde os limites entre a expressão artística e a vida foram postos à prova, quando objectos do quotidiano (o famoso urinol de Duchamp) foram retirados do seu contexto e expostos como obras de arte. O projecto "anti" fracassara a partir do momento em que as peças passaram a integrar as colecções permanentes dos museus e o que era subversivo tornara-se num inofensivo momento da história da arte.

Porém o fracasso foi meramente aparente e só poderia assim ser interpretado à luz de considerações meramente formais. Com efeito, a subversão Dada foi bem real e concreta, servindo para requestionar os limites da linguagem artística e do papel da arte na sociedade.

Também o noise de Merzbow é concreto e a tensão dialéctica entre a música e o ruído não pode ser resolvida pela opção formal de o apresentar ou não como obra musical. Pelo contrário, a sedução do som de Merzbow, em toda a sua densidade, saturação, irrepetibilidade, irracionalidade, brutalidade, reside na iminente reversibilidade da sua tensão dialéctica: ruído insuportável/êxtase auditivo.

Por esta razão, a experiência de Merzbow aproxima-se do patético erótico: o desejo de fusão mística e a impossibilidade da união determinada pela descontinuidade trágica da diferença. É o próprio Masami Akita quem reivindica o pan-erotismo da sua expressão musical: «Tudo é erótico, todo o lugar é erótico», citando o aforismo surrealista que mais o influenciou; e continua: «o ruído é a mais erótica forma de som, por isso todos os meus trabalhos se referem ao erótico». E, de facto, o ouvinte de Merzbow é brutalmente violado e, simultaneamente, convocado à escuta activa e desejante: assaltado pela densa massa de frequências, a repulsão logo se transforma em atracção e sente-se emergir nessa densidade sonora, sem, porém, nunca encontrar o conforto de uma harmonia ou a regularidade de um ritmo, antes, mantendo-se numa frenética e inalcançável demanda.

A metáfora do masoquista não é aqui deslocada, podendo mesmo considerar-se o paradigma do ouvinte ocidental de noise japonês. Mas a perspectiva oriental de Merzbow não é a do controlo da audiência ou mesmo do material sonoro (essa seria porventura a intenção de alguns grupos ocidentais oriundos da música industrial, como Whitehouse, referida, porém, como influência de Merzbow); bem no oposto disso, desde os seus primeiros trabalhos, Masami Akita procurou minorar a sua intervenção, reinventando o processo de criação automática através da aleatoriedade da produção do som pelo equipamento que utilizava, nomeadamente, explorando as virtualidades do feedback, em vez da notação musical.

Os sons de feedback do equipamento são um conceito central para Merzbow. O feedback produz automaticamente uma tempestade de ruído e isso é bastante erótico, como se se tratasse de uma expiação magnética da electrónica.

A produção de Merzbow é ainda muito activa e tem vindo a ganhar um grande reconhecimento internacional. O número de peças eleva-se acima dos 500. Recomendam-se álbuns como "Noisembryo", "Music for Bondage Performance", "1930" ou "Material Aktion II", para a descoberta de uma das formas mais extremas e menos convencionais de expressão sonora.

Artigo também disponível no site clubOtaku.

Nuno da Fonseca
Fotografias: D.R.

9.14.2007

Carlos Suárez: “Resonancias Ontolóxicas”


A netlabel Alg-a lançou “Resonancias Ontolóxicas”, de Carlos Suárez.

Segundo a etiqueta galega, este é «un traballo de 11 composicións que van dende a electroacústica, as paisaxes sonoras e unhas complexas extructuras rítmicas que presumiblemente estean inspiradas nos diversos estudios que Carlos ten feito sobre os ritmos venezolanos e latinoamericanos».

9.12.2007

V/A - IMCA: “IMCA”


I have to admit that I have a love-hate relation with this album. I love the way this album was made. It represents a somewhat bygone musical age, a time with cassettes and without e-mail, when things worked perhaps slower, but perhaps also more intensely.

The full story of how the IMCA project (International Musique Concrète Ensemble) came together is told in detail in the CD booklet. In short, in 1990 Frans de Waard started a mail collaboration with John Hudak and Jos Smolders for a cassette on Midas Music, and later a second one with Guido Huebner (of Das Synthetisches Mischgewebe), Ios Smolders and Isabelle Chemin, which was the LP released by Korm Plastics. The basic sound material (created by De Waard) was mailed to the first recipient who would rework the material and mail it to the next recipient etcetera. Thus a network chain was born.

The results were released on the original IMCA album, which came on glorious white vinyl and contained an explanatory booklet. The vinyl edition consisted of 98 copies; 77 of these were for the public, 21 for the makers, resulting in the fact that many people knew about it, but only a few actually heard the music. I remember I was supposed to help gluing the covers, but I can't remember if I did in the end. I was given a free copy, so perhaps I did. I love the way this re-release is presented; an old tattered cover of the LP was used for this CD, which gives it a nice archival touch. The booklet is well-designed (by Meeuw), contains some of the original notes and explains the recording process in detail.

But now to the music: IMCA is not easy listening, it is in fact a very demanding, electro-acoustic record with extreme dynamics. These dynamics were a bit lost on the original pressing on vinyl, but due to Jos Smolder's remastering these are back in place, which means you'll get to hear the IMCA ensemble as it was meant to be heard.

The opening track of the CD still gives me a headache: high pitched feedback shrieks close to the level of irritation. It's hard to listen to this without turning the volume down. Luckily the electro-acoustic/musique concrète of IMCA becomes more listenable after the challenging intro. The often dry sounds (dry as in untreated") are combined with long silences, with, at times, sudden blasts of concrete noise. Most of the used sounds seem to have their origin in noise (musique concrète) rather than a musical source.

Despite the many hands at the wheel of this album, the results are strangely coherent, which is a complement to those involved. In total 10 tracks are indexed, even though it's hard to tell where one ends and the other one begins. IMCA is probably best enjoyed in one long listening session in the right frame of mind.

The final two tracks, which make up for the final 30 minutes of this CD, feature side A and B from the Midas cassette version with contributions from John Hudak. Here the sound is more traditional industrial if you like, with rhythms and a bit of a Nurse With Wound touch. Not bad at all.

This is an important archive release of an album made by adventurous musicians who actually live up to their name. Like back in 1991, I'm not sure if it's musically a classic, but I am very happy to have this in my collection.

[CD by Absurd]

Freek Kinkelaar / Vital Weekly


9.06.2007

OPINIÃO: Foi você que pediu uma Europa-fortaleza?



A discussão (e mediatização) verificada em torno do fenómeno da extrema-direita na Europa levanta - de novo - uma série de questões.

A mais relevante, do ponto de vista político-institucional, será desde logo a aprovação pelo Parlamento Europeu da legislação que condena criminalmente a promoção e o incitamento ao ódio racial e à xenofobia.

O aspecto positivo da medida é a harmonização legal desta matéria no conjunto dos Estados-membros da União Europeia (UE). Medida que, no entanto, tem dado que falar, até porque houve países (nórdicos) que levantaram o problema da liberdade de expressão, que – dizem – não deverá ser limitada mesmo em relação a ideologias que preconizam a limitação, ou mesmo eliminação, deste conceito na realidade social.

Com efeito, deve-se fazer uma pergunta, que não é nova: que legitimidade haverá para proibir a actividade da extrema-direita, enquanto ideologia contrária à Democracia, quando se permite a existência de partidos de extrema-esquerda (um conceito talvez mais ambíguo...) que defenderam e provavelmente ainda defendem ou desculpam figuras como Estaline ou Mao Tsé-Tung (pelo menos mantêm um silêncio comprometedor), que não só lideraram regimes tão totalitários como os do eixo nazi-fascista, como integram com distinção o top dos maiores genocidas da História?

A diferença, afinal, sempre residiu em pormenores político-ideológicos, não nas consequências práticas da brutalidade e desumanidade com que a sua repressão se abateu sobre os cidadãos. Uma simples análise séria aos contornos do regime de Nicolae Ceauşescu na Roménia dissipará qualquer dúvida.

O que é certo é que a renovação ou refundação partidária não se verificou apenas nas formações comunistas europeias. A extrema-direita que se apresenta a eleições na Europa e integra governos legitimados pelo voto não é “fascista” no sentido histórico-filosófico do termo. Não advoga o modelo ditatorial – que considera ultrapassado – e não deseja a expansão imperial. Quanto ao racismo, a escola biológica e neo-darwinista dá lugar ao “racialismo” e ao nacionalismo identitário. Cada um no seu lugar (do globo).

É uma ideologia que aprendeu a jogar pelas regras da Democracia, embora a despreze no seu íntimo. Diz-se contra o sistema, mas actua de forma ardilosa dentro deste. Não esqueçamos que, no passado, Hitler foi eleito chanceler, no que foi a ruptura final com a experiência de Weimar.

Esta é a “nova direita”, delineada no pós-guerra e germinada no seio do GRECE (grupo de investigação e estudo da civilização europeia), que deseja uma Europa de nações diversas – tão diversas quanto o neo-petainismo de Le Pen e o nacionalismo pós-moderno do falecido Pim Fortyin podem ser.

Uma força política que - sublinhe-se - se constituiu enquanto grupo no Parlamento Europeu em Janeiro, através do Identidade, Tradição e Soberania, paradoxalmente formado pelos votos de quem se sente desiludido com a UE.

Como anteriormente referido, este artigo pretende aludir a várias questões. Por exemplo, os “meros” 10% obtidos por Le Pen nas últimas presidenciais francesas não reflectem o esmorecimento das ideias e sentimentos que o colocaram na segunda volta de 2002, mas antes a deslocação do voto (então de protesto contra o sistema) para Nicolas Sarkozy, que conseguiu de forma notória o intento de roubar parte do eleitorado da Frente Nacional, com o seu discurso “musculado”.

Nesse sentido, deve ser encarado com preocupação o aumento do número de cidadãos que defendem a noção de Europa-fortaleza. Não por convicção político-ideológica, mas pelos movimentos migratórios e o clima de insegurança urbana, pela globalização desregrada e desvirtuada, pelo medo do Outro exponenciado pelo terrorismo. Terreno fértil para o populismo, que não reside apenas na extrema-direita...

Não é redundante recordar que as épocas de maior brilho na História da Europa – como a Antiguidade Clássica e o Renascimento – coincidem com a abertura e cosmopolitismo que, no fundo, ajudaram a moldar a nossa contemporaneidade.
A Europa pode e deve manter a sua identidade social e cultural (ou melhor, sociais e culturais, numa diversidade retratada de forma simbólica pela bandeira conceptualizada para a UE por Rem Koolhaas). Mas em interacção com o Mundo em que está inserida. Uma Europa-fortaleza só poderá (re)conduzir ao obscurantismo.

Qual será então a melhor resposta para este fenómeno? Talvez dando provas da superioridade do modelo democrático e – acima de tudo – não proporcionar as condições para o aparecimento ou recrudescimento de quem se aproveita de momentos como o que atravessamos para defender o regresso à “normalidade histórica”.

Se estas perturbações se verificam, como já antes se verificaram, por alguma razão é. A actual desorientação colectiva e a incerteza face ao futuro podem fazer com que a História se venha mesmo a repetir, pelo que a Europa e o Mundo necessitam de políticos atentos à realidade que os circunda, não de avestruzes…




Nuno Loureiro
Imagens: D.R.